“A compaixão tem má reputação; ninguém gosta de ser objeto dela, nem tampouco de senti-la. Isso a distingue nitidamente, por exemplo, da generosidade. Compadecer é sofrer com, e todo sofrimento é ruim. Como a compaixão poderia ser boa? – André Comte-Sponville, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Eu pude constatar pessoalmente a má reputação da compaixão quando, há cinco anos (2003), tentei começar a compartilhar e difundir a Ação Compassiva. Para quase todas as pessoas, independentemente dos seus níveis culturais, a palavra “compaixão” sempre trazia junto de si idéias de sofrimento, tristeza, pena, e tudo mais que as suas desesperadas lutas por uma vida mais próspera e alegre queriam evitar. Numa época em que proliferam no Ocidente os cursos de pensamento positivo, programação neuro-linguística, milagres, rituais de prosperidade e sucesso, entre outras tantas supostas técnicas de realização pessoal, quem poderia se interessar por algo que, ao menos no senso comum, estava quase sempre associado ao sofrimento?

Essa antecipação, por que não dizer, preconceituosa, com o sentido da compaixão me levou, por muitas vezes, a trilhar caminhos diametralmente opostos ao que a Ação Compassiva propunha. Nas poucas palestras que cheguei a ministar, era comum perder mais tempo explicando o equívoco da noção que se generalizou sobre a compaixão do que falando do que ela nos tem realmente a oferecer.

Este é um erro em que não pretendo continuar a cair. Afinal, ninguém precisa (e nem pode) ser convencido da sua visão incorreta para, a partir daí, aceitar a Ação Compassiva. Visões incorretas vêm de pensamentos incorretos e levam a ações incorretas, e nem mesmo eu estou livre deste que é um dos princípios mais fundamentais da Ação Compassiva! Tentar convencer os outros dos seus enganos é uma ação que só poderia vir de uma percepção incorreta da realidade. A verdade que não podia enxergar é que o engano não era dos outros, mas apenas meu. Eu não compreendia a compaixão, e a prova disso era a incompreensão que eu acreditava encontrar nas outras pessoas.

Muitos educadores garantem que ensinar é a forma mais eficiente de aprendizado. Em alguns casos, talvez seja a única forma de aprender, e hoje eu percebo que a compaixão é um desses casos. Ensinar a compaixão para aprender e compreender a compaixão equivale, como veremos adiante, a curar em si mesmo a doença e o sofrimento que vemos equivocadamente nos outros.

Para ensinar eu não preciso dizer o que o outro não sabe ou, conforme a minha visão incorreta, sabe de um jeito errado. Tudo que eu preciso fazer é me colocar num sincero estado de disponibilidade, numa abertura tal que, por si mesma, a realidade se mostre. Para tanto, é preciso confiar na realidade; confiar no fato de que há uma realidade a ser vista mas, principalmente, confiar no que ela mesma me apresenta.

Para compreender o significado da palavra compaixão, basta procurar um dicionário, livros religiosos ou os infindáveis discursos filosóficos. Só que este não é o meu trabalho! O meu trabalho é compreender a compaixão, redescobrir a minha capacidade de sentir compaixão, aprender a agir compassivamente e, deste modo, despertar para a realidade da vida e da minha própria natureza.

Ao ensinar a compaixão e a Ação Compassiva, posso e devo partir de algumas afirmações objetivas. Elas não são, de modo algum, verdades absolutas a serem empurradas para outras pessoas. Não me interessa ensinar conceitos. Tais afirmações são necessárias apenas para provocar reações. É vendo como o mundo e os meus interlocutores reagem a essas afirmações, bem como como o que sinto diante de tais reações, que eu vou tomando consciência da minha própria ignorância e insatisfação.

Por outro lado, sem uma referência segura, eu jamais conseguiria diferenciar uma visão correta de uma incorreta. O propósito da Ação Compassiva, através dos seus princípios, é justamente me dar um conjunto seguro de referências. Mas não se pode confundir “referências seguras” com “sistema de crenças”, ou tudo voltaria à estaca zero.

A diferença entre as referências e as crenças é o que acontece quando alguém nos aponta algo com o seu indicador: podemos nos fixar no dedo que aponta ou, tomando-o como referência, buscar aquilo que ele tenta nos mostrar.

Eu posso dizer (e vou dizer) sobre a compaixão que ela é, a um só tempo, sentimento, virtude e poder. Isso é uma referência segura, mas se alguém se apegar a esta afirmação como a uma resposta satisfatória e fizer dela um parâmetro para julgar outras afirmações sobre o mesmo assunto, ela passará a ser uma crença totalmente inútil para qualquer um dos nossos propósitos.

É uma questão de escolha… Na verdade, a única escolha de que realmente dispomos. Escolher entre uma crença ou outra só nos pode levar a outras tantas crenças. A única escolha possível é entre a crença e a realidade. Enquanto saltamos de uma crença para outra, de um dedo para outro, estamos abrindo mão daquilo que mais prezamos: o nosso livre arbítrio.

A realidade não permite escolhas: ela é o que é. Somente as crenças podem nos levar a optar entre um caminho ou outro, entre certos e errados, entre melhores e piores… Mas, como são crenças, nenhum dos caminhos é o real. Nenhuma crença pode me ajudar a compreender a compaixão ou a realidade.