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O “bonito” e o “belo” não são a mesma coisa. Enquanto o “bonito” emerge como o resultado de um julgamento relativo e pessoal, o “belo” é um sinal de identificação entre o observador e a coisa observada, ou seja, o belo é o sinal do reconhecimento de uma identidade. O bonito pode surgir de uma opinião, mas o belo só pode vir da atenção.

O bonito (que significa, literalmente, “bonzinho”), é o mesmo que bom, agradável… Nós estamos sempre reduzindo a beleza aos nossos gostos e conveniências, a nossa atenção é filtrada pelo que nos agrada, e, então, nós não percebemos mais estas diferenças. Enquanto transitarmos pelas vias contrastantes dos nossos gostos, jamais conheceremos a beleza.

A beleza precisa da atenção para ser notada, mas nós somos muito desatentos. Nós dirigimos sempre a nossa atenção de forma seletiva, nós estamos sempre procurando alguma coisa que se encaixe nos nossos sonhos de satisfação. Nós procuramos apenas o “aprazível”… Todo o resto é “desprezível”!

Mais uma vez mostramos o quanto estamos presos às lembranças… Se fôssemos simplesmente atentos, poderíamos encontrar facilmente beleza em toda parte. Encontrando a beleza, encontraríamos o novo, o autêntico… Mas como estamos sempre procurando o que já conhecemos, desprezamos toda a “graça” da vida.

A FORÇA DO DESPREZO

É assim que funciona a mente julgadora: dividindo a vida em coisas aprazíveis e desprezíveis. O desprezo, todavia, é o mesmo que não querer ver, é ignorância voluntária, mesmo que inconsciente. O inconsciente, a propósito, é onde estão escondidas todas as coisas que desprezamos. Mas elas não ficam passivamente ali… Ironicamente, a maior parte de tudo que percebemos do mundo é a manifestação da força de tudo que desconhecemos, as coisas de que somos inconscientes. Tudo que está desprezado nos pressiona constantemente até tornar-se conhecido.

Nós não vemos as coisas que nos são inconscientes, mas sentimos a sua força o tempo todo, em todas as circunstâncias de que nos cercamos. Quanto mais desatentos – ou seletivamente atentos – nós somos, maior é a força do inconsciente sobre nossas vidas. O desprezado luta para ser conhecido… e é por isso que estamos sempre com medo.

OS QUATRO MEDOS

Os antigos egípcios acreditavam que as pessoas sofriam de quatro tipos básicos de medo:

  • Medo de perder
  • Medo de enfrentar
  • Medo de ser abandonado
  • Medo de morrer

Havia, inclusive, um templo inteiro dedicado à superação do medo. Nele, os iniciados passavam por diversas provas onde eram obrigados a vencer o medo… ou morrer. No fim das contas, o medo da morte era o grande motivador do sucesso, mas até ele deveria ser vencido numa prova final. Se o iniciado, na última prova, ainda tivesse algum medo da morte, ele morreria…

Mesmo parecendo algo bárbaro em nossos dias, o fato é que todos nós morremos por causa do medo que temos de morrer. Nós passamos a vida inteira desprezando a morte e, por isso mesmo, estamos sempre sendo cercados por ela. Nós não conhecemos a morte, mas experimentamos a sua força em todas as circunstâncias em que nos envolvemos.

Nós não conhecemos a morte, mas vemos a sua força destruindo corpos… Vemos a possibilidade de os nossos próprios corpos serem destruídos, mas não sabemos o que a morte é… Não podemos saber porque desprezamos a morte e, depois, damos o nome de “vida” ao nosso desprezo.

Não pode amar verdadeiramente a vida, quem despreza a morte. Quem venceu o medo da morte, no entanto, é imortal! Por isso os antigos egípcios aceitavam provas tão radicais. Eles sabiam muito bem que o medo da morte é a única causa da morte.

O templo onde esses testes aconteciam era dedicado a dois deuses: Horus e Sobek (deuses representados com corpos humanos e cabeças de falcão e crocodilo, respectivamente). Horus é o deus da Luz, da consciência espiritual. Sobek é o deus das trevas e do inconsciente. O templo era rigorosamente dividido ao meio – metade para cada deus – mas era um único templo. A divisão se dava ao longo de sua extensão, e os dois deuses ficavam lado-a-lado. Todo culto prestado a Horus era prestado igualmente a Sobek.

Isso representava o fim da luta entre o consciente e o inconsciente, a luz e a sombra, o aprazível e o desprezível… Era o fim do medo! Se conseguisse passar por todas as provas, o iniciado tornava-se um imortal, pois teria encontrado a neutralidade, ou seja, teria aprendido a “lutar com o bem e com o mal”…

O RECONHECIMENTO DO AUTÊNTICO

A imortalidade não é o mesmo que a infinita durabilidade do corpo. Como nós não conhecemos a morte, nós achamos que ela é a destruição do corpo. Em verdade, a morte não existe. O que chamamos de “morte” é apenas a síntese de todos os nossos medos. Morrer, da forma como percebemos, é uma representação que acontece quando desistimos de resolver o conflito entre o aprazível e o desprezível.

Nós acreditamos que temos medo da morte, mas o que nós realmente tememos é a vida! A vida é a grande desprezada, a vida autêntica – aquela que vai além dos nossos gostos e conveniências –, e o autêntico é sempre neutro. Quando reconhecemos o autêntico, acontece a identificação, e isso é a beleza.

A beleza, então, não é um atributo relativo de alguma coisa, e nem depende dos nossos sentidos para existir. Ela é um sinal de reconhecimento e identificação com tudo que é autêntico. Normalmente nós nos identificamos com o ego, com as negatividades, com as referências do sistema de crenças… Por isso confundimos o “belo” com o “bonito”, o “autêntico” com o “aprazível”.

Quando nos identificamos, nem que seja por um instante, com o autêntico, tudo fica claro, a beleza se desvela em toda parte, a vida se mostra como ela é… e a morte desaparece! É por isso que se diz que todas as coisas vêm da Graça de Deus.

“Graça” é o mesmo que “beleza”, é o sinal da autenticidade. “Dar de graça” é o mesmo que dar autenticamente; “receber de graça” é o mesmo que receber autenticamente… Sem uma atenção irrestrita não é possível ver a beleza e, sem ver a beleza, a gratidão não é possível. Sem gratidão não temos nada… não somos nada.

VIGILÂNCIA ACIMA DOS JULGAMENTOS

Ao perfeito estado de atenção, aberta e neutra, os yogues hindus chamam de “dharana”. Em português, podemos usar o termo “Vigilância” (desde que não se faça confusão entre “vigilância” e “policiamento”), a capacidade de ver com atenção irrestrita.

A vigilância é o estado de abertura da visão, o “querer ver” sem desprezar nada. Para alcançar esse estado, não há uma técnica especial, mas o exercício constante da tolerância pode nos levar a ele.

Tolerar é alargar as nossas expectativas na busca do aprazível, é desprezar cada vez menos, é julgar cada vez menos… De certo modo, a tolerância é um tipo de confiança e, assim como a confiança desperta a Disponibilidade, a tolerância desperta a Vigilância, pois ela representa a confiança no fato de que a beleza está em toda parte… Basta querer ver.

Tudo vem da beleza.

Quem não vê a beleza, não vê nada…

Não é porque as dores são ilusórias que nós não devemos cuidar delas. Em verdade, devemos cuidar tanto das dores quanto das alegrias. É isso que nos liberta quando reconhecemos que toda satisfação passageira também é um sintoma da ignorância.

A LUTA COM O BEM E COM O MAL

Akbel ensinava que a felicidade só é possível “pela luta com o bem e com o mal”. Ele precisou utilizar termos carregados de conflito (como “luta” e “dever”) ou não teria sido ouvido em seu tempo, justamente o século em que estivemos mais próximos de chegar, pelas nossas próprias tendências belicosas, à extinção de toda a espécie humana. Mas quem podia vê-lo em sua essência de Amor, sabia que ele não estava falando em ataques ou defesas, ele não falava em travar novos combates inúteis, mas em cessar os conflitos já instaurados.

“Lutar com o bem e com o mal” não é o mesmo que “lutar contra o bem e contra o mal”. “Lutar contra” é o que nós já fazemos o tempo todo. Tudo que nos é inconveniente é, para nós, o mal, mesmo que para outras pessoas, ou em outras circunstâncias, as mesmas coisas sejam vistas como o bem. Nós lutamos contra tudo, e todas as nossas lutas visam apenas a preservação da ignorância. Akbel ensinou que somente reunindo o bem e o mal numa mesma “neutralidade”, só assim, conheceremos a felicidade. Isso equivale a dizer que, somente desistindo de julgar, poderemos encontrar a verdade.

CEGOS PARA DEUS

Nos nossos sonhos de vida, nós somos cegos para Deus porque estamos sempre escondendo a metade das coisas. Quando nos alegramos com algo, escondemos todo um mundo de tristezas… Quando estamos tristes, fechamos os olhos para todo um mundo de alegrias. Nós temos dois olhos, mas vemos tudo pela metade!

Se vemos alguém doente, cheio de dores (sejam físicas ou não), nós estamos vendo apenas metade do problema. Se vemos crianças abandonadas e maltratadas, isso é apenas a metade do problema. Vendo apenas a metade dos problemas, nós não poderemos resolvê-los.

Só que este não é nosso foco neste momento. O que é importante dizer agora é que, mesmo assim, nós podemos (e devemos) proporcionar algum alívio… e isso já é muito! É muito porque a outra metade do problema não está nos doentes ou nas crianças famintas que vemos no mundo. Surpreendentemnete, a outra metade está em nós mesmos!

A GRANDE SEPARAÇÃO

A grande separação que fazemos, a maior dualidade que construímos, é a oposição entre o “eu” e o “não-eu”, o “eu” e os “outros”, o “eu” e o “mundo”… Sem esta separação, nenhuma alegria seria possível, a menos que todas as pessoas estivessem alegres. Nenhuma tristeza seria possível, a menos que todas as pessoas estivessem tristes… Em verdade, sem esta separação, não haveria nem alegrias e nem tristezas… apenas felicidade.

Nenhum dos nossos atos, pensamentos e palavras são neutros. Tudo o que fazemos afeta o universo inteiro! Vivendo a grande separação, se nós estamos satisfeitos, alguém está faminto; se temos muito, alguém não tem nada… O mundo que fazemos com os nossos julgamentos é assim. Só a “luta com o bem e com o mal” pode mudar isso. Somente com o fim das fronteiras entre o “eu” e o “não-eu” é que a felicidade será desvelada.

A felicidade é o nosso estado natural, mas nós não a conhecemos, nós nos negamos a conhecê-la… Em verdade, para nós o bem é sempre uma exclusividade do “eu”. Todo o resto é o mal. Lutar com o bem e com o mal é compor uma mesma unidade que englobe tanto o “eu” quanto o “não-eu”.

O fato é que não existe um “não-eu”. Todas as coisas do mundo nos dizem respeito, pois nós as colocamos lá. A invenção mais estúpida que nós já concebemos foram as fronteiras! As fronteiras são a instituição da ignorância e da separação. Do mesmo modo que cada pessoa é o bem para si mesma, cada nação é, para si mesma, o bem cercado pelo mal por todos os lados.

LIBERDADE E AMEAÇA

Foi Gandhi quem disse: “nenhuma nação pode ser livre se constitui uma ameaça para as outras nações”, e isso é o que nós podemos constatar em nossos dias… A nação mais poderosa do mundo de hoje – os Estados Unidos – é uma ameaça constante ao planeta inteiro, mas o grau de ameaça que oferece é inversamente proporcional à liberdade do seu povo… O mesmo vale para todos nós: quanto mais ameaçadores nos tornamos, menos livres nós somos. A ameaça aumenta na mesma medida em que acreditamos que o bem é uma exclusividade nossa.

A VONTADE DE DEUS

Quando alguém usa tudo o que sabe para tentar aliviar o sofrimento alheio, é porque algo em seu interior lhe diz que o sofrimento não é do outro, mas seu próprio. Aliviar os sofrimentos dos outros, então, não é apenas caridade ou altruísmo, mas, principalmente, uma questão de inteligência! É o mais elevado grau de inteligência, o reconhecimento da realidade do sofrimento… a compaixão! Mais do que isso: quem age desse modo desenvolve uma capacidade de estar disponível que vai além de toda conveniência.

A “disponibilidade” é, na Mente Compassiva, a própria inteligência divina, a infalível “Vontade de Deus”, incapaz de ver separações e ciente de que o único modo possível para aumentar a felicidade é compartilhando felicidade. É por isso que, quando alguém faz algo de “efetivo” para aliviar as dores alheias, sempre pede que toda gratidão seja dirigida a Deus, pois é realmente a Mente de Deus quem age nessas ocasiões… é a Interferência Divina.

UMA CONFIANÇA INCONDICIONAL

Tudo o que damos, nós damos a nós mesmos, sejam positividades ou negatividades. Tudo o que recebemos, é sempre gratidão… Mas nós não podemos dar positividades antes de vencer a idéia de que os outros são uma ameaça para nós. É preciso, antes, desenvolver um tipo incondicional de confiança. Devemos confiar no próximo como confiaríamos em nós mesmos… Mas se não confiamos nem em nós mesmos, dificilmente teremos positividades para compartilhar, dificilmente iremos nos interessar pelo sofrimento de quem quer que seja.

Não se trata, porém, da confiança como uma certeza da capacidade de realizar algo, mas de um estado no qual nada, ou ninguém, é visto como uma ameaça. Sem confiança, a nossa vida é cheia de ansiedade, estamos sempre com medo, sempre expressando hostilidade e desânimo. Somente a confiança pode despertar a Disponibilidade, a Inteligência Divina, a Vontade de Deus em nós. Nós não podemos praticar a Disponibilidade, mas podemos aprender a confiar.

Aprender a confiar é um longo caminho. Muitas vezes nós nos decepcionaremos, mas, sempre que isso acontecer, basta lembrar que a confiança que procuramos é incondicional, ou seja, não depende do comportamento dos outros. Se dizemos que confiamos, mas nos decepcionamos, é porque a nossa confiança não é incondicional, significa que nós ainda esperamos algo de alguém.

A confiança não pode esperar recompensas, nem de Deus, nem das pessoas… Isso não é confiança. Quem age desse modo está mais perto da arrogância e da hostilidade do que da confiança e da Disponibilidade.

A verdadeira confiança sempre será acompanhada da humildade, da simplicidade de quem quer apenas ver o autêntico, o verdadeiro. Não adianta dizer que confiamos no mundo, que ninguém pode nos ameaçar, e esperar que o mundo se submeta às nossas projeções de desejos ou de segurança.

O que adianta é render-se incondicionalmente e utilizar todos os meios disponíveis para aliviar as dores onde elas estiverem.

O que adianta é ser humilde e aceitar o simples fato de que jamais seremos livres se continuarmos perseguindo os nossos desejos e fugindo dos nossos medos.

O que funciona é ceder sempre a vez ao próximo sabendo que nada está sendo realmente cedido.

O que importa é saber que o amor ao próximo “é” o amor a si mesmo…

O vídeo dispensa comentários… Mais claro, só sentindo na carne quando não houver mais jeito.

Créditos:

“The Story of Stuf”

Versão brasileira idealizada pela comunidade Permacultura

Orkut: http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=111403

Realizada nos Estúdios Gavi New Track – SP

Direção e edição Fábio Gavi;

Locução Nina Garcia;

Adaptação do texto Denise Zepter.

Site brasileiro de divulgação do vídeo

http://www.sununga.com.br/HDC/

Tudo o que damos, nós damos a nós mesmos; tudo o que recebemos, é sempre gratidão. Mesmo assim, nós estamos sempre pensando em trocas. Nós estamos sempre esperando recompensas pelas coisas que fazemos… Não há espaço para a gratidão nas nossas vidas e, por isso, os nossos corações estão sempre tão cheios de decepções.

Nós queremos sempre o que jamais poderemos possuir, pois ninguém pode possuir sonhos! Quando damos algo, é nesse exato instante que nós estamos recebendo. Não há nenhuma recompensa futura. O universo não nos deve nada! Se não somos gratos pela simples oportunidade de dar, não temos como perceber que estamos recebendo algo.

A LEI DOS MILAGRES

A gratidão é uma chave para aquilo que os antigos místicos hindus chamavam de “a lei dos milagres”. Os milagres não estão além das leis da natureza. Em verdade, eles estão na essência de todas as leis que constituem e regem a natureza. Eles não têm nada de extraordinário; nada que é autêntico é, de fato, extraordinário. Os milagres são apenas a revelação daquilo que as ilusões escondem, e a gratidão é quem faz subir as negras cortinas da ignorância.

Os milagres não têm nada de fora do comum, mas nós não estamos acostumados a ver positividades. Nós não estamos acostumados a ser autênticos e, por isso, os breves vislumbres do real nos causam espanto. Nós estamos, isto sim, acostumados a lutar pelo que queremos, tanto que já aceitamos a luta como uma lei natural.

DAR DE GRAÇA

“Gratuito” e “gratidão” têm raiz na palavra “graça”. O Mestre Jesus nos ensinou a “dar gratuitamente o que gratuitamente recebemos”… Ele estava ensinando a lei dos milagres, pois tudo o que recebemos sempre nos chegou de forma gratuita, e não como uma conseqüência do esforço e da luta. A luta é uma escolha nossa, e nenhuma relação possui com o que recebemos. Em verdade, a luta só pode retardar a percepção de que já temos tudo o que poderíamos desejar.

Se nós vivemos o presente, estamos sempre gratos, e tudo vem gratuitamente. Se nós queremos a felicidade e a realização, devemos estar atentos para a interferência do passado em nossas vidas. Devemos compreender que “ilusão” significa que nós não vemos as coisas como elas realmente são, e isso acontece simplesmente porque os olhos da dualidade só podem nos mostrar os muros do passado.

TODA LUTA É INÚTIL

A vida jamais exigiu de nós que lutássemos! Isso é apenas uma crença sem sentido fomentada pela necessidade de acumular como meio de conquistar alguma segurança. Quem funciona por acúmulo não somos nós, mas a memória. Acumular é a natureza e o jeito de ser da memória. Ela funciona acumulando experiências e fazendo de tudo que já passou uma norma para o futuro.

No fim das contas, este é o significado do “carma”: a ação regida por padrões e normas acumulados na memória. O que chamamos de “causas”, não passam de normas acumuladas na memória restringindo as vivências posteriores a um limitado conjunto de eventos ou circunstâncias que estejam em conformidade com o passado, ou seja, os “efeitos”.

Só a gratidão pode nos libertar do carma, do ciclo vicioso das causas e efeitos que são, em outras palavras, a continuação do passado através da necessidade.

Toda necessidade é uma força a nos sujeitar a estabelecer conformidades entre o que vivemos e as causas passadas. A necessidade é, portanto, a força do carma. Sempre que agimos movidos pelas necessidades, nós damos mais força ao carma. Agir por necessidades estabelece mais normas e perpetua o passado.

NENHUMA NECESSIDADE É REAL

Alguns escritos hindus dizem que o carma é a lei que rege a vida dos homens até que todos os seus desejos sejam satisfeitos. Muitos têm visto nessas palavras uma justificativa para sair em busca de todo tipo de satisfação pueril, mas isso é um engano. Quando o homem se descobre satisfeito, desde sempre, em tudo que poderia desejar, ele percebe que jamais teve nenhuma necessidade e, portanto, está livre do carma. Quando nos descobrimos satisfeitos, não há desejos ou necessidades, apenas gratidão!

O carma está diretamente relacionado com a ação. Todas as nossas atitudes constroem as normas e as medidas do futuro, mas somente se nós permitirmos. Nós nos permitimos ser prisioneiros do carma e das ações quando, principalmente, confundimos a satisfação das necessidades com estabilidade.

Estabilidade é a capacidade de estar presente, autenticamente presente, e no presente não há necessidades. A estabilidade diz respeito ao que nós realmente somos, ao Ser Único que, iludidos por todas as negatividades, desconhecemos por completo.

As coisas que pensamos possuir e acumulamos ao nosso redor não nos podem dar estabilidade alguma! Tudo que elas podem dar são motivos para lutar. Nós estamos dispostos a lutar pela preservação do que pensamos possuir. Isso é o mesmo que aceitar viver as normas do passado, é o mesmo que não viver. Se não estamos presentes, a vida é apenas luta. Lutamos a vida inteira, e quando nos cansamos de lutar, nós morremos.

A VIDA SÓ RESPONDE AO QUE É AUTÊNTICO

Se, ao menos por um instante, nós pudéssemos ser realmente gratos, conheceríamos toda a riqueza da vida, e jamais nenhuma necessidade nos poderia perseguir novamente!

O princípio da gratidão não é difícil de compreender. Basta estar atento ao fato de que nós só podemos desejar o que já conhecemos. Então, em vez de implorar por milagres, tudo o que nós precisamos fazer é agradecer pelo que já temos desde sempre. O difícil, porém, é ser autêntico, é estar no presente e ser verdadeiramente grato.

De nada adianta fingir gratidão enquanto o coração está cheio de decepções e o pensamento cheio de projeções. A vida não se deixa enganar assim tão fácil. Ela não aceita barganhas! A vida só responde ao que é autêntico. A lei é clara: “nós só temos e somos aquilo que damos”. Se damos negatividades, somos e temos negatividades. Se damos positividades, somos e temos positividades. Negatividade é ausência de autenticidade, é vazio de verdade.

Imitar a gratidão não é o mesmo que ser verdadeiramente grato. Não adianta repetir mecanicamente: “obrigado Senhor!” – Deus não faz favores a ninguém. A verdadeira gratidão vem do reconhecimento direto de que temos e somos tudo. Gratidão é ver objetivamente a graça, a beleza, sinal inequívoco da presença divina em tudo e em todos.

Gratidão é dar com graça, o que da Graça recebemos.

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