Não é só a mim que impressionam os ricos caracteres simbólicos presentes nas célebres personagens de Cervantes: Dom Quixote e Sancho Pança. Muitos autores, de diversas linhas de pensamento, já ilustraram suas teses com essas mesmas enigmáticas figuras. Quando decidi escrever sobre a Mente Compassiva, confesso, não consegui resistir à tentação de seguir-lhes o exemplo e adotar também a mesma analogia. Tanto é assim que, antes mesmo de escrever uma só letra deste material, acumulei o maior número possível de imagens do “Cavaleiro da Triste Figura” e do seu (quase) fiel escudeiro.
O passo seguinte foi determinar quais seriam as verdades subjetivas, emergentes daqueles dois companheiros de aventuras, capazes de auxiliar-me na construção de uma ponte segura para a passagem das tão incomuns idéias que tento disseminar. Sim, porque é apenas isso que as analogias devem ser: pontes seguras.
Há que se encontrar a justa medida, ou deixaríamos de apresentar as nossas idéias e passaríamos ao plano das interpretações literárias. Pior ainda se buscássemos elementos inexistentes nas personagens, alterando-lhes o caráter, somente para que elas se ajustassem plasticamente ao que desejamos transmitir. Apesar de todo cuidado intrínseco ao expediente das analogias, penso que este ainda é o melhor modo de falar de coisas que, para uma boa parte das pessoas, está além dos fatos mensuráveis, mesmo que esta impressão não seja totalmente precisa.
É já neste ponto que acontece a primeira identificação com os heróis de Cervantes. Quem é que precisa de pontes seguras? Certamente não é a verdade, mas o homenzinho gordo, acomodado, interessado apenas na preservação da sua própria pele, que habita em mim e em cada um de nós. É o nosso lado Sancho Pança, perfeitamente adaptado a um mundo de questões bem imediatas, não necessariamente simples, mas quase sempre “evidentes” aos sentidos. Pelo menos é assim que o Sancho em nós vê todas as suas necessidades e motivações: é tudo sempre muito “evidente”.
Mas não pode ser tudo tão óbvio, ou como explicar a existência de um Dom Quixote? Para o nosso lado Sancho, é muito fácil: isso é loucura, é um triste distúrbio que merece apenas a nossa comiseração e que (evidentemente) inspira “cuidados”… Todavia a atitude normal do “Sancho em nós” seria o isolamento. Nós não queremos compartilhar as visões de uma mente insana, seja por que são bizarras, seja por elas representarem uma ameaça aos alicerces do nosso mundo.
Nos anos 60 e 70 do século passado surgiu um movimento mundial, existente até hoje, que defende a idéia de que a doença mental é um tipo de “rotulação”, que permite à sociedade lidar de forma repressiva com pessoas cuja conduta excêntrica pareça desafiar a ordem estabelecida. Não pretendo discutir essa questão – eu realmente não tenho tempo para teorias e ideologias – mas não posso negar a importância ilustrativa de um dos pensamentos mais conhecidos de um dos líderes desse movimento, o psiquiatra americano Thomas S. Szasz:
“Se você fala com Deus, você está rezando; se Deus fala com você, você tem esquizofrenia. Se os mortos falam com você, você é um médium; Se Deus fala com você, você é um esquizofrênico“. (The Second Sin)
Que misteriosos laços, então, ligam tão fortemente o nosso Sancho a Dom Quixote? O escudeiro, sozinho, talvez não tenha como responder a essa questão. O seu mundo é regido por normas duras, tudo é sempre muito pragmático e linear quando a única luta de um homem é travada contra a sua própria fortuna. “A deusa Fortuna, sozinha, desbarata as previsões de cem sábios”, afirmava Plauto, e mesmo as rígidas leis do mundo de Sancho são inúteis contra seus caprichos. Contra os deuses, somente os heróis, pois é da sua natureza o “ir além”: além das normas, além do consenso, além do evidente…
De sua própria parte, Sancho conta apenas com a sua “esperteza” (ou “virtú”, como preferiria dizer Maquiavel) para continuar sobrevivendo, a capacidade de transformar as investidas da sorte, quando estas lhe são propícias, em oportunidades, e assim ir sempre retardando um fim que ele mesmo sabe ser inevitável. Mas o que fazer quando a fortuna lhe vira as costas aladas? Ele faz o que todos fazemos, mesmo a contragosto: ele espera. Nós esperamos mesmo quando pensamos estar fazendo algo útil, pois é também nas atitudes inúteis e desesperadas que nós expressamos a esperança.
Mas o herói não é assim! O herói não espera! Na sua impetuosidade ele é o próprio esperado, o Messias, o eterno salvador, pronto a arrojar-se contra quimeras, mesmo que sejam apenas pacíficos moinhos de vento aos olhos que enxergam apenas o evidente. Afinal, o herói nunca faz o que os outros esperam que ele faça. Ele está sempre fazendo coisas estranhas, dizendo coisas estranhas e, no fim, tendo vivido uma vida breve, porém repleta de feitos impossíveis e milagres, acaba sempre sucumbindo diante de uma tolice, geralmente em circunstâncias que seriam completamente inofensivas a qualquer Sancho Pança. As mesmas normas que protegem o escudeiro, são as que parecem destruir Dom Quixote e, quando isso acontece, o “Sancho em nós” volta a esperar… só que de um outro jeito.
Ele não é mais aquele homenzinho gordo e espertamente acomodado de antes, e já em muitas coisas ele começa a assemelhar-se ao seu mestre. Talvez sejam apenas os sinais do tempo que, além das rugas, empresta-lhe ao semblante um ar de meditativa contemplação. Talvez, não… É possível que alguma mudança mais profunda tenha acontecido… como saber? No fim, ter partilhado de tantas aventuras com Dom Quixote fez com que emergisse uma dimensão de mundo que Sancho Pança não conhecia: a abissal dimensão da incerteza. A herança de Dom Quixote desaparecido é o caos, um vazio profundo que nenhuma razão é capaz de discernir, nenhuma memória é capaz de lembrar, e nenhuma esperteza é capaz de transpor. E o “Sancho em nós” começa a se perguntar se os moinhos não eram mesmo quimeras…
Cada um de nós tem um tanto de Sancho Pança e um tanto de Dom Quixote. Há sempre uma parte que quer ir além dos limites aonde só os heróis vão, e uma outra, mais prudente quanto às iniciativas, que se acomoda às normas do mundo, do qual espera apenas segurança e satisfação. Um não existe sem o outro, mas podemos passar a vida toda sem que essas duas partes conheçam uma à outra. Para ser mais exato, o “Sancho em nós” pode ignorar a existência do “Dom Quixote em nós”, mas nunca o contrário.

No comments yet
Feed de comentários deste artigo