Quando a felicidade se torna uma meta a ser alcançada, tudo que podemos esperar encontrar são decepções.

A felicidade não pode ser procurada, pois ela já é o nosso estado natural, a condição natural de tudo que é autenticamente. Se ainda procuramos a felicidade, é porque ainda não nos encontramos… Nós ainda não sabemos ser autênticos. Enquanto não conhecermos a verdade sobre nós mesmos, a felicidade também será uma desconhecida para nós, e tudo que poderemos buscar será a satisfação de desejos sem sentido.

A CURA DA MENTE

A felicidade está para a satisfação, assim como a vontade está para o desejo. O que liga as duas relações é a liberdade. Sem liberdade não há nem vontade e nem felicidade. A vida submetida aos critérios da mente julgadora não é livre, é uma doença. Certamente esta é a única doença verdadeira, uma só doença com muitos sintomas possíveis… Uma doença que só pode ser curada com liberdade, com o reconhecimento da felicidade.

Poderíamos dizer que o nome desta doença é “delírio”. A vida sem o conhecimento da verdadeira felicidade é apenas delírio, pois a verdade, quando vista, só pode ser descrita como beleza e, quando sentida, é só felicidade! Nós deliramos porque estamos cegos para as luminosas flores da verdade.

RENUNCIAR AOS JULGAMENTOS

Não há fórmulas mágicas para curar a mente e, finalmente, reconhecer a felicidade… Não há fórmulas mágicas para o despertar na vida autêntica. Para sair do delírio em que nos encontramos, é preciso querer ver, é preciso ser livre, e isso significa renunciar a todos os julgamentos.

A justiça vem sendo representada há muito tempo como uma mulher vendada. Esta “cegueira simbólica” não representa, porém, imparcialidade como muitos dizem. O verdadeiro significado deste simbolismo é bem mais profundo, e diz respeito ao fato de que todo julgamento nos impede de ver a verdade.

O julgamento nos aprisiona ao que os olhos nos mostram… Também há o simbolismo do feminino, a capacidade de encontrar significados sem o uso da razão, ou seja, a compaixão. Toda esta imagem nos diz claramente que a compaixão é a única justiça possível!

Para encontrar a felicidade, então, é preciso querer ver, é preciso remover a venda dos julgamentos da frente dos nossos olhos. Enquanto julgarmos, tudo o que conheceremos será conformidade e conveniência. Sempre haverá necessidades, insatisfação e decepções. A felicidade, para nós, será sempre dependente de condições e circunstâncias… Ela será sempre uma questão de “sorte”. Sorte no amor, nos negócios… Sorte na vida.

Toda sorte, entretanto, é só conveniência, é a satisfação passageira de um desejo ou outro. As satisfações são necessárias, ou não seríamos capazes de reconhecer a beleza e a felicidade, mas a insatisfação também cumpre com o seu papel ajudando-nos a lembrar de que a vida é incompleta sem o conhecimento da verdade.

SEMPRE PRESENTE E SEM CONTRÁRIOS

A felicidade é algo que está sempre presente, a despeito das alegrias e tristezas passageiras. É um engano pensar que a tristeza é o oposto da felicidade. Tristeza é contrário apenas da alegria, mas a felicidade é como a Vida: ela não tem contrários!

A ausência da felicidade, ou melhor, o fato de não a percebermos, é só um delírio, pois ela é um atributo inseparável da individualidade… da Vida Una! Somente o delírio pode nos fazer acreditar que uma vida sem felicidade é real.

Por causa da nossa consciência delirante (ou ignorância), nós sempre condicionamos a felicidade ao acúmulo de coisas e pessoas. É por isso que nós estamos sempre insatisfeitos, sempre vivendo decepções.

Nós não possuímos nada na vida centrada no ego, mas, com ele, estamos sempre lutando para possuir, como se isso fosse preencher o vazio que o delírio deixa em nós… Quando conseguimos conquistar algo que nos satisfaça, nós até nos alegramos, mas o vazio continua ali. As alegrias são tão passageiras quanto as tristezas, mas a felicidade é para sempre!

O COMÉRCIO DE FRUSTRAÇÕES

Nós não sabemos disso, mas a felicidade está no fim de todas as esperanças. Onde há esperanças, há o desconhecimento da felicidade, há o delírio. Em função do delírio, nós construímos a esperança de encontrar a felicidade em muitas coisas, menos onde ela sempre esteve…

A esperança é o ideal de felicidade que cada um de nós constrói sobre as próprias ilusões. Nós construímos esperanças à medida que elaboramos significados ilusórios para a desconhecida felicidade. A esperança é sempre, então, uma promessa de felicidade.

O mundo se especializou em conceituar a felicidade com vistas ao lucro. Nós vendemos e compramos promessas de felicidade, mas não notamos que estamos, em verdade, comercializando frustrações.

Há, em nossos dias, um novo tipo de tirania: a tirania do sorriso. Os meios de comunicação despejam sobre nós a obsessão da conquista da felicidade como se ela já não estivesse conosco desde sempre. Estamos sendo “bombardeados” com todo tipo de sugestão sobre o que é a felicidade e como é importante que possamos comprá-la a qualquer preço.

Deste modo, felicidade passa a ser o carro do ano, a mulher na capa da revista masculina, o galã da novela, a família perfeita do seriado de TV, etc… Coisas que, além de inacessíveis à maioria das pessoas, não podem cumprir com o que prometem. Tudo que a mídia nos dá realmente é frustração e dependência…

O comércio está abarrotado de coisas que podemos comprar como se fossem a felicidade. Temos de tudo, desde o misticismo barato do “comércio violeta” até as pílulas de felicidade instantânea vendidas nas farmácias. Depois ainda nos perguntamos porque algumas pessoas procuram as drogas…

Está tudo à disposição de quem puder e quiser pagar, mas quem não pode pagar, impulsionado pela tirania da felicidade, tem sempre a opção de apelar para a violência. Decepção gera raiva, que gera medo, que gera ansiedade e mais decepções… Indefinidamente, até que escolhamos querer ver.

A decepção só pode ser curada com “fé”, e fé significa ser autêntico. Só é possível escapar das promessas do comércio de esperanças sendo autêntico, conhecendo a verdade sobre nós mesmos e o mundo.

Precisamos estar vigilantes apenas para o que é autêntico, pois a mídia e os gurus da nova era fazem de tudo para que acreditemos que a felicidade está em tudo, menos em nós mesmos…