Tudo o que damos, nós damos a nós mesmos; tudo o que recebemos, é sempre gratidão. Mesmo assim, nós estamos sempre pensando em trocas. Nós estamos sempre esperando recompensas pelas coisas que fazemos… Não há espaço para a gratidão nas nossas vidas e, por isso, os nossos corações estão sempre tão cheios de decepções.
Nós queremos sempre o que jamais poderemos possuir, pois ninguém pode possuir sonhos! Quando damos algo, é nesse exato instante que nós estamos recebendo. Não há nenhuma recompensa futura. O universo não nos deve nada! Se não somos gratos pela simples oportunidade de dar, não temos como perceber que estamos recebendo algo.
A LEI DOS MILAGRES
A gratidão é uma chave para aquilo que os antigos místicos hindus chamavam de “a lei dos milagres”. Os milagres não estão além das leis da natureza. Em verdade, eles estão na essência de todas as leis que constituem e regem a natureza. Eles não têm nada de extraordinário; nada que é autêntico é, de fato, extraordinário. Os milagres são apenas a revelação daquilo que as ilusões escondem, e a gratidão é quem faz subir as negras cortinas da ignorância.
Os milagres não têm nada de fora do comum, mas nós não estamos acostumados a ver positividades. Nós não estamos acostumados a ser autênticos e, por isso, os breves vislumbres do real nos causam espanto. Nós estamos, isto sim, acostumados a lutar pelo que queremos, tanto que já aceitamos a luta como uma lei natural.
DAR DE GRAÇA
“Gratuito” e “gratidão” têm raiz na palavra “graça”. O Mestre Jesus nos ensinou a “dar gratuitamente o que gratuitamente recebemos”… Ele estava ensinando a lei dos milagres, pois tudo o que recebemos sempre nos chegou de forma gratuita, e não como uma conseqüência do esforço e da luta. A luta é uma escolha nossa, e nenhuma relação possui com o que recebemos. Em verdade, a luta só pode retardar a percepção de que já temos tudo o que poderíamos desejar.
Se nós vivemos o presente, estamos sempre gratos, e tudo vem gratuitamente. Se nós queremos a felicidade e a realização, devemos estar atentos para a interferência do passado em nossas vidas. Devemos compreender que “ilusão” significa que nós não vemos as coisas como elas realmente são, e isso acontece simplesmente porque os olhos da dualidade só podem nos mostrar os muros do passado.
TODA LUTA É INÚTIL
A vida jamais exigiu de nós que lutássemos! Isso é apenas uma crença sem sentido fomentada pela necessidade de acumular como meio de conquistar alguma segurança. Quem funciona por acúmulo não somos nós, mas a memória. Acumular é a natureza e o jeito de ser da memória. Ela funciona acumulando experiências e fazendo de tudo que já passou uma norma para o futuro.
No fim das contas, este é o significado do “carma”: a ação regida por padrões e normas acumulados na memória. O que chamamos de “causas”, não passam de normas acumuladas na memória restringindo as vivências posteriores a um limitado conjunto de eventos ou circunstâncias que estejam em conformidade com o passado, ou seja, os “efeitos”.
Só a gratidão pode nos libertar do carma, do ciclo vicioso das causas e efeitos que são, em outras palavras, a continuação do passado através da necessidade.
Toda necessidade é uma força a nos sujeitar a estabelecer conformidades entre o que vivemos e as causas passadas. A necessidade é, portanto, a força do carma. Sempre que agimos movidos pelas necessidades, nós damos mais força ao carma. Agir por necessidades estabelece mais normas e perpetua o passado.
NENHUMA NECESSIDADE É REAL
Alguns escritos hindus dizem que o carma é a lei que rege a vida dos homens até que todos os seus desejos sejam satisfeitos. Muitos têm visto nessas palavras uma justificativa para sair em busca de todo tipo de satisfação pueril, mas isso é um engano. Quando o homem se descobre satisfeito, desde sempre, em tudo que poderia desejar, ele percebe que jamais teve nenhuma necessidade e, portanto, está livre do carma. Quando nos descobrimos satisfeitos, não há desejos ou necessidades, apenas gratidão!
O carma está diretamente relacionado com a ação. Todas as nossas atitudes constroem as normas e as medidas do futuro, mas somente se nós permitirmos. Nós nos permitimos ser prisioneiros do carma e das ações quando, principalmente, confundimos a satisfação das necessidades com estabilidade.
Estabilidade é a capacidade de estar presente, autenticamente presente, e no presente não há necessidades. A estabilidade diz respeito ao que nós realmente somos, ao Ser Único que, iludidos por todas as negatividades, desconhecemos por completo.
As coisas que pensamos possuir e acumulamos ao nosso redor não nos podem dar estabilidade alguma! Tudo que elas podem dar são motivos para lutar. Nós estamos dispostos a lutar pela preservação do que pensamos possuir. Isso é o mesmo que aceitar viver as normas do passado, é o mesmo que não viver. Se não estamos presentes, a vida é apenas luta. Lutamos a vida inteira, e quando nos cansamos de lutar, nós morremos.
A VIDA SÓ RESPONDE AO QUE É AUTÊNTICO
Se, ao menos por um instante, nós pudéssemos ser realmente gratos, conheceríamos toda a riqueza da vida, e jamais nenhuma necessidade nos poderia perseguir novamente!
O princípio da gratidão não é difícil de compreender. Basta estar atento ao fato de que nós só podemos desejar o que já conhecemos. Então, em vez de implorar por milagres, tudo o que nós precisamos fazer é agradecer pelo que já temos desde sempre. O difícil, porém, é ser autêntico, é estar no presente e ser verdadeiramente grato.
De nada adianta fingir gratidão enquanto o coração está cheio de decepções e o pensamento cheio de projeções. A vida não se deixa enganar assim tão fácil. Ela não aceita barganhas! A vida só responde ao que é autêntico. A lei é clara: “nós só temos e somos aquilo que damos”. Se damos negatividades, somos e temos negatividades. Se damos positividades, somos e temos positividades. Negatividade é ausência de autenticidade, é vazio de verdade.
Imitar a gratidão não é o mesmo que ser verdadeiramente grato. Não adianta repetir mecanicamente: “obrigado Senhor!” – Deus não faz favores a ninguém. A verdadeira gratidão vem do reconhecimento direto de que temos e somos tudo. Gratidão é ver objetivamente a graça, a beleza, sinal inequívoco da presença divina em tudo e em todos.
Gratidão é dar com graça, o que da Graça recebemos.

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