Não é porque as dores são ilusórias que nós não devemos cuidar delas. Em verdade, devemos cuidar tanto das dores quanto das alegrias. É isso que nos liberta quando reconhecemos que toda satisfação passageira também é um sintoma da ignorância.

A LUTA COM O BEM E COM O MAL

Akbel ensinava que a felicidade só é possível “pela luta com o bem e com o mal”. Ele precisou utilizar termos carregados de conflito (como “luta” e “dever”) ou não teria sido ouvido em seu tempo, justamente o século em que estivemos mais próximos de chegar, pelas nossas próprias tendências belicosas, à extinção de toda a espécie humana. Mas quem podia vê-lo em sua essência de Amor, sabia que ele não estava falando em ataques ou defesas, ele não falava em travar novos combates inúteis, mas em cessar os conflitos já instaurados.

“Lutar com o bem e com o mal” não é o mesmo que “lutar contra o bem e contra o mal”. “Lutar contra” é o que nós já fazemos o tempo todo. Tudo que nos é inconveniente é, para nós, o mal, mesmo que para outras pessoas, ou em outras circunstâncias, as mesmas coisas sejam vistas como o bem. Nós lutamos contra tudo, e todas as nossas lutas visam apenas a preservação da ignorância. Akbel ensinou que somente reunindo o bem e o mal numa mesma “neutralidade”, só assim, conheceremos a felicidade. Isso equivale a dizer que, somente desistindo de julgar, poderemos encontrar a verdade.

CEGOS PARA DEUS

Nos nossos sonhos de vida, nós somos cegos para Deus porque estamos sempre escondendo a metade das coisas. Quando nos alegramos com algo, escondemos todo um mundo de tristezas… Quando estamos tristes, fechamos os olhos para todo um mundo de alegrias. Nós temos dois olhos, mas vemos tudo pela metade!

Se vemos alguém doente, cheio de dores (sejam físicas ou não), nós estamos vendo apenas metade do problema. Se vemos crianças abandonadas e maltratadas, isso é apenas a metade do problema. Vendo apenas a metade dos problemas, nós não poderemos resolvê-los.

Só que este não é nosso foco neste momento. O que é importante dizer agora é que, mesmo assim, nós podemos (e devemos) proporcionar algum alívio… e isso já é muito! É muito porque a outra metade do problema não está nos doentes ou nas crianças famintas que vemos no mundo. Surpreendentemnete, a outra metade está em nós mesmos!

A GRANDE SEPARAÇÃO

A grande separação que fazemos, a maior dualidade que construímos, é a oposição entre o “eu” e o “não-eu”, o “eu” e os “outros”, o “eu” e o “mundo”… Sem esta separação, nenhuma alegria seria possível, a menos que todas as pessoas estivessem alegres. Nenhuma tristeza seria possível, a menos que todas as pessoas estivessem tristes… Em verdade, sem esta separação, não haveria nem alegrias e nem tristezas… apenas felicidade.

Nenhum dos nossos atos, pensamentos e palavras são neutros. Tudo o que fazemos afeta o universo inteiro! Vivendo a grande separação, se nós estamos satisfeitos, alguém está faminto; se temos muito, alguém não tem nada… O mundo que fazemos com os nossos julgamentos é assim. Só a “luta com o bem e com o mal” pode mudar isso. Somente com o fim das fronteiras entre o “eu” e o “não-eu” é que a felicidade será desvelada.

A felicidade é o nosso estado natural, mas nós não a conhecemos, nós nos negamos a conhecê-la… Em verdade, para nós o bem é sempre uma exclusividade do “eu”. Todo o resto é o mal. Lutar com o bem e com o mal é compor uma mesma unidade que englobe tanto o “eu” quanto o “não-eu”.

O fato é que não existe um “não-eu”. Todas as coisas do mundo nos dizem respeito, pois nós as colocamos lá. A invenção mais estúpida que nós já concebemos foram as fronteiras! As fronteiras são a instituição da ignorância e da separação. Do mesmo modo que cada pessoa é o bem para si mesma, cada nação é, para si mesma, o bem cercado pelo mal por todos os lados.

LIBERDADE E AMEAÇA

Foi Gandhi quem disse: “nenhuma nação pode ser livre se constitui uma ameaça para as outras nações”, e isso é o que nós podemos constatar em nossos dias… A nação mais poderosa do mundo de hoje – os Estados Unidos – é uma ameaça constante ao planeta inteiro, mas o grau de ameaça que oferece é inversamente proporcional à liberdade do seu povo… O mesmo vale para todos nós: quanto mais ameaçadores nos tornamos, menos livres nós somos. A ameaça aumenta na mesma medida em que acreditamos que o bem é uma exclusividade nossa.

A VONTADE DE DEUS

Quando alguém usa tudo o que sabe para tentar aliviar o sofrimento alheio, é porque algo em seu interior lhe diz que o sofrimento não é do outro, mas seu próprio. Aliviar os sofrimentos dos outros, então, não é apenas caridade ou altruísmo, mas, principalmente, uma questão de inteligência! É o mais elevado grau de inteligência, o reconhecimento da realidade do sofrimento… a compaixão! Mais do que isso: quem age desse modo desenvolve uma capacidade de estar disponível que vai além de toda conveniência.

A “disponibilidade” é, na Mente Compassiva, a própria inteligência divina, a infalível “Vontade de Deus”, incapaz de ver separações e ciente de que o único modo possível para aumentar a felicidade é compartilhando felicidade. É por isso que, quando alguém faz algo de “efetivo” para aliviar as dores alheias, sempre pede que toda gratidão seja dirigida a Deus, pois é realmente a Mente de Deus quem age nessas ocasiões… é a Interferência Divina.

UMA CONFIANÇA INCONDICIONAL

Tudo o que damos, nós damos a nós mesmos, sejam positividades ou negatividades. Tudo o que recebemos, é sempre gratidão… Mas nós não podemos dar positividades antes de vencer a idéia de que os outros são uma ameaça para nós. É preciso, antes, desenvolver um tipo incondicional de confiança. Devemos confiar no próximo como confiaríamos em nós mesmos… Mas se não confiamos nem em nós mesmos, dificilmente teremos positividades para compartilhar, dificilmente iremos nos interessar pelo sofrimento de quem quer que seja.

Não se trata, porém, da confiança como uma certeza da capacidade de realizar algo, mas de um estado no qual nada, ou ninguém, é visto como uma ameaça. Sem confiança, a nossa vida é cheia de ansiedade, estamos sempre com medo, sempre expressando hostilidade e desânimo. Somente a confiança pode despertar a Disponibilidade, a Inteligência Divina, a Vontade de Deus em nós. Nós não podemos praticar a Disponibilidade, mas podemos aprender a confiar.

Aprender a confiar é um longo caminho. Muitas vezes nós nos decepcionaremos, mas, sempre que isso acontecer, basta lembrar que a confiança que procuramos é incondicional, ou seja, não depende do comportamento dos outros. Se dizemos que confiamos, mas nos decepcionamos, é porque a nossa confiança não é incondicional, significa que nós ainda esperamos algo de alguém.

A confiança não pode esperar recompensas, nem de Deus, nem das pessoas… Isso não é confiança. Quem age desse modo está mais perto da arrogância e da hostilidade do que da confiança e da Disponibilidade.

A verdadeira confiança sempre será acompanhada da humildade, da simplicidade de quem quer apenas ver o autêntico, o verdadeiro. Não adianta dizer que confiamos no mundo, que ninguém pode nos ameaçar, e esperar que o mundo se submeta às nossas projeções de desejos ou de segurança.

O que adianta é render-se incondicionalmente e utilizar todos os meios disponíveis para aliviar as dores onde elas estiverem.

O que adianta é ser humilde e aceitar o simples fato de que jamais seremos livres se continuarmos perseguindo os nossos desejos e fugindo dos nossos medos.

O que funciona é ceder sempre a vez ao próximo sabendo que nada está sendo realmente cedido.

O que importa é saber que o amor ao próximo “é” o amor a si mesmo…