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Há dois modos de ver as coisas. Uma delas é olhar com apego o que os nossos sentidos nos mostram e, com isso, tecer julgamentos e opiniões. Nós podemos formar idéias sobre o que vemos e, então, dizer que conhecemos a verdade sobre aquilo que estamos observando. A outra forma de ver é o exercício do apego exclusivamente ao que é autêntico.
A diferença entre “positividades” e “negatividades” não está na polarização que estabelecemos entre elas. O positivo não é o oposto do negativo. O que acontece, afinal, é que as negatividades não possuem autenticidade, mas as positividades, sim.
Positividades são visões dotadas de autenticidade, visões objetivas. Quando observamos de forma separada da coisa observada, quando emitimos algum juízo e formamos uma idéia sobre o que vemos, a nossa visão é negativa, ela é uma “negatividade”.
Se são apenas idéias, as negatividades não possuem existência real além das fronteiras da nossa própria consciência. Se as negatividades jamais existiram, nunca houve qualquer oposição, jamais houve nenhuma polaridade, nenhuma dualidade… Apenas positividades ocultas por detrás da tela ilusória das nossas mentes julgadoras.
Todas as negatividades escondem algum tipo de positividade. Quando ignoramos a verdade sobre as coisas que vivenciamos, nós costumamos nos satisfazer com as impressões subjetivas que a mente julgadora nos impõe. Por isso nós classificamos as nossas vivências como agradáveis e desagradáveis, boas ou más… Todas essas impressões – tanto as “boas” quanto as “más” – são negatividades. Elas não são uma realidade objetiva. Se uma observação resulta no desvelamento da Verdade, o que se vê não pode ser classificado como bom ou mau.
Nenhuma positividade possui adjetivos. A Verdade é sempre um fato objetivo sobre o que não cabe nenhum tipo de julgamento. A Verdade é sempre positiva, sempre presente e objetiva. Antes de indicar um tipo de oposição, as positividades e as negatividades são, portanto, “estados de percepção da realidade”. Quando olhamos o mundo e emitimos julgamentos, o nosso mundo é uma negatividade. Isso significa que estamos usando os olhos da memória, os olhos da experiência passada, ao invés do olhar vigilante e silencioso da mente compassiva, o olhar do presente.
Isso não quer dizer que as negatividades devam ser desprezadas. Muito pelo contrário! Se toda negatividade esconde uma positividade, nós não podemos descansar até que o autêntico seja desvelado. É preciso “querer ver”, ao invés de alimentar mais desprezos. O “querer ver” é fundamental para o despertar da Mente Compassiva. Desistir da Verdade rejeitando as negatividades, além de ser uma das armadilhas da razão, é a origem das maiores manifestações de indiferentismo de que se tem notícia. Só o ego pode ser beneficiado com isso.
UMA ANALOGIA DA INTERFERÊNCIA
Nenhuma árvore pode surgir instantaneamente de uma semente. O “ser uma árvore” implica, além da sua aparência, também na história do seu crescimento. Se tal transformação fosse possível, algum tipo de interferência teria de acontecer. Seria preciso um mago, ou um cientista, para que o fenômeno acontecesse. Neste sentido, a mente julgadora (através do ego) é um grande mágico! É exatamente isso que ela faz o tempo todo… A mente julgadora interfere em tudo que você vê.
Sempre que estamos diante de mudanças (e tudo muda sempre), sempre que “o novo” surge, o ego já está reagindo, ajustando as mudanças aos parâmetros do sistema de crenças. O novo é sempre uma positividade, mas o ego não nos deixa ver isso. Ele nos dá sempre uma imagem relacionada – por causalidade – com o passado. Essa imagem é, destarte, sempre dual, relativa, ou seja, é sempre uma negatividade.
O ego precisa nos obrigar a estabelecer vínculos e classificações, ou ele perderá a sua função e desaparecerá… Sem julgamentos o ego simplesmente desaparece. Foi por isso que Jesus ensinou: “não julguem para que não sejam julgados”. Quando julgamos, o ego se fortalece, ele ganha importância e estabelece as bases e as medidas do nosso próprio futuro!
O JUÍZO FINAL
Todas as descrições do Juízo Final são referências alegóricas ao fim do ego, o fim de todos os julgamentos, ou seja, o momento em que o indivíduo escolhe ver apenas positividades, mesmo que elas estejam ocultas nas negatividades. Trata-se do último julgamento, o máximo da lucidez, quando podemos discernir com clareza apenas a diferença entre o autêntico e o ilusório.
O ego está sempre interferindo e, à medida que as suas interferências vão acontecendo, nós vamos acumulando negatividades. Nós não podemos evitar as interferências, mas podemos nos tornar conscientes das estratégias do ego. Conscientes das interferências, as positividades vão se mostrando por si mesmas, elas surgem naturalmente. Mas, para que isso aconteça, é preciso ver além do ego, e o único modo de fazer isso é abrindo mão de todo e qualquer julgamento.
O CICLO DE NEGATIVIDADES
Quando o ego interfere, ele se vale de alguns mecanismos para nos sujeitar às negatividades. Ele nos submete aos seus delírios através, principalmente, do prazer e do medo. Sem prazer não aceitaríamos as negatividades; sem medo, nós não nos apegaríamos ao prazer… Nós somos assim, nós nos lembramos muito mais facilmente dos nossos pesadelos do que dos nossos sonhos mais belos. Nós sabemos enumerar todas as vezes que sofremos, mas poucas das nossas alegrias nos acompanham.
O medo dá o sinal de partida para circuito fechado de apego, um “ciclo de negatividades”. Medo provoca ansiedade, o impulso irresistível de interferir para escapar do que tememos. Como a fonte do medo está oculta no ego, nós acabamos sempre decepcionados, insatisfeitos, e isso nos provoca raiva. Movidos pela raiva, nós criamos confusões, lutas, conflitos… E isso tudo provoca ainda mais medo. É um ciclo vicioso…
Tudo de que o ego precisa é que nós desejemos interferir. Basta que tentemos “fazer algo” sobre qualquer um desses sentimentos. Quando interferimos no medo, ele se torna hostilidade para produzir a ansiedade. Quando interferimos na ansiedade, ela se transforma em desânimo a fim de provocar decepções. Quando interferimos nas nossas decepções, surge a intolerância para que a raiva apareça. Finalmente, quando interferimos na raiva, ela se manifesta como irritação, e faz emergir o medo novamente…
Nós só precisamos querer interferir, quem age por nós é o próprio ego. Os hindus chamam o ego de “Ahankara”, que significa literalmente: “o que faz”. Para eles, “o que faz” é a raiz de todas as dualidades, a origem da aparente separação entre o homem e a divindade. Segundo suas crenças, “o ahankara coloca os seres humanos sob o domínio de maya; o que é subjetivo apresenta-se falsamente como objetivo…” (Yogananda).
O ego é quem faz, por isso o único modo de vencer o ciclo vicioso das negatividades é abandonar o ego. Nós não podemos nos livrar do medo, mas podemos nos livrar “daquele que faz”, podemos nos livrar de nós mesmos.

O CICLO DE POSITIVIDADES
Sem renúncia não há nem liberdade, nem uma vontade legítima. Quando renunciamos de fazer algo sobre o medo e nos permitimos apenas observar, o natural é que o Amor se mostre por si mesmo sob a forma de “gentileza”. Se renunciamos a lutar contra a ansiedade, uma forte “confiança” brota naturalmente em nós. Quando nos negamos a agir contra a decepção, emerge em nós a “tolerância”. Escolhendo somente observar, finalmente, a raiva, a compaixão floresce em nossos corações, abrindo, assim, as portas para a Mente Compassiva…
Para sair do ciclo vicioso do medo e entrar na roda libertadora da compaixão, basta renunciar ao “querer fazer” e escolher, simplesmente, o “querer ver”. Todos os monstros desaparecem quando acendemos a luz…

Ciclo de Positividades
AÇÕES POSITIVAS
Do mesmo que as visões, as ações também podem ser positivas ou negativas. As “ações positivas” são legítimas, neutras, não podem ser classificadas como “certas” ou “erradas”. Todas as ações positivas derivam de quatro ações básicas:
1.Estar presente…
2.Compartilhar somente positividades…
3.Querer ver…
4.Renunciar às reações (todas elas egóicas)…
Cada uma destas ações está ligada, respectivamente, ao amadurecimento de quatro atributos fundamentais:
1.Estabilidade (Presença)…
2.Cooperatividade (Renúncia)…
3.Humildade…
4.Fé…
Não existe nenhum método infalível para o desenvolvimento desses atributos, mas, cada vez que somos capazes de perceber que estamos em algum ponto do ciclo de negatividades, cada vez que sentimos medo, ansiedade, decepções ou raiva, temos uma oportunidade para renunciar a fazer. Nós podemos nos negar a agir negativamente e, assim, permitir o despertar da Mente Compassiva.
Quando aprendemos a observar o medo, a cooperatividade (ou renúncia) tem uma oportunidade de surgir.
Quando aprendemos a observar a ansiedade, a humildade pode se apresentar.
Observando as decepções, aprendemos sobre a fé.
Aprendendo a observar a raiva sem fazer nada, a estabilidade (ou presença) é alcançada.
Imitar esses atributos não é o mesmo que conquistá-los. Ninguém deveria fazer nada enquanto não pudesse observar a raiva e vê-la desaparecer naturalmente. Se alguém sente raiva e perdoa, seu perdão é falso, é uma ação negativa. Isso é o mesmo que transformar uma semente instantaneamente numa árvore… Além de acelerar o surgimento da irritação, agir de qualquer modo é desperdiçar uma oportunidade para libertar-se do ciclo vicioso das negatividades. Se alguém decidir apenas observar a raiva, descobrirá que não será obrigado a perdoar, pois saberá positivamente que nenhuma ofensa foi praticada.
COMPARTILHANDO POSITIVIDADES
Visões e ações positivas devem ser compartilhadas. Isso significa que, se há uma relação entre nós e o mundo, ela deve ser sempre autêntica, sempre positiva.
- (Fé) Compartilhar as positividades transforma o medo em gentileza…
- (Humildade) Querer ver transforma ansiedade em confiança…
- (Renúncia ou Cooperatividade) Renunciar às ações negativas transforma as decepções em tolerância…
- (Estabilidade ou Presença) Estar presente transforma a raiva em compaixão!
A CAPACIDADE DE ESTAR PRESENTE
Estabilidade é a capacidade de estar presente. Muitas pessoas teorizam que o estado de presença implica numa passividade inútil aos desafios da vida. Essas pessoas jamais estiveram presentes, elas não suportam a sua própria presença… São prisioneiras das suas crenças.
Estabilidade é o mesmo que a “inércia ativa”, ensinada por Akbel, é o mesmo que “serenidade”. Sem a presença, não há nenhuma positividade a ser compartilhada, portanto, não pode haver cooperatividade – só se pode cooperar estando presente e tendo algo objetivo para oferecer. Ainda assim, é preciso ter humildade, ou seja, é necessária uma total predisposição a ver, e nós só podemos ver as positividades quando reconhecemos que nada sabemos sobre elas. “Tudo o que sei é que nada sei”, diria Sócrates… Só quem não sabe pode aprender! Além disso, é preciso renunciar a tudo que não é autêntico. A Fé (palavra que vem do latim, “fide”, e significa “fiel”, “autêntico”), nas tradições ocidentais, é o mesmo que “Satya” na tradição hindu. Somente a Fé, o apego exclusivo ao autêntico, pode remover as montanhas da ignorância que nos separam de toda positividade.
Por mais estranho que pareça, cada vez que sentimos medo, ansiedade, decepção ou raiva, estamos tendo uma oportunidade para despertar. É só escolher dar o salto, “querer ver” ao invés de “querer fazer”. Nós, todavia, geralmente escolhemos o “querer fazer”, e nem percebemos a nossa escolha…
ESCONDERIJOS DE NEGATIVIDADES
Os vícios são, em geral, esconderijos para as nossas negatividades. O hábito de consumir bebidas alcoólicas, por exemplo, mesmo que não constitua uma doença, oferece sempre um refúgio para o medo. É um hábito resultante das nossas reações ao medo… É um “fazer algo”. Se, por um lado, quando bebemos nos tornamos mais sociáveis, mais soltos, alegres e relaxados, quando o efeito do álcool se vai, a hostilidade emerge e nós nem sabemos de onde ela vem. A hostilidade já se acumulou em nossos comportamentos e está pronta para eclodir sem avisos prévios. A origem foi o medo, mas nós não notamos isso. Nós ficamos mais resistentes à gentileza e à cooperatividade. Pessoas dependentes de álcool são mais suscetíveis aos efeitos do medo do que as outras. Cada um de nós tem uma suscetibilidade particular a cada uma das quatro negatividades básicas. É por isso que os nossos hábitos e vícios podem nos ajudar a revelar o que estamos escondendo:
MEDO –> ÁLCOOL
ANSIEDADE –> FUMO
DECEPÇÃO –> JOGO
RAIVA –> GULA
Sendo assim, a questão não é combater ou não esses hábitos (mesmo que eles se configurem explicitamente como vícios), pois eles não são a causa de nada, mas simplesmente reconhecer que eles estão escondendo algo de nós.
Do mesmo modo que o álcool esconde nossas reações ao medo (que são, em resumo, hostilidade), o fumo pode esconder as nossas reações contra a ansiedade, fazendo com que não sejamos capazes de perceber a desconfiança, a depressão e o desânimo. O jogo esconde de nós as nossas reações contra as decepções e faz com que nos tornemos, sem perceber, cada vez mais intolerantes, cada vez mais restritos em nossos horizontes de expectativas. Já a gula, especialmente o hábito de comer carne, esconderá as nossas reações contra a raiva e, com isso, nós vamos nos tornando mais irritados, mais sensíveis e prontos a reagir contra todos os estímulos exteriores.
Em verdade, nenhum desses hábitos é “mau” por si só. Eles são apenas esconderijos fornecidos por nós mesmos para as nossas negatividades. Existem pessoas que não bebem, não fumam, não jogam e não comem carne mas, ainda assim, reagem negativamente a tudo. Do mesmo modo, existem verdadeiros “santos” que se ligam a um ou mais vícios… É por isso que os vícios não servem de medida para a grandeza espiritual de ninguém!
Ao mesmo tempo em que escondem as armadilhas do ego, esses hábitos também podem nos dar indicações precisas quanto às nossas suscetibilidades, permitindo-nos, então, adotar a ação positiva mais adequada. Se, por exemplo, alguém é viciado em tabaco, o aprendizado e o exercício da humildade pode levá-lo facilmente à libertação, não apenas do seu vício, mas de todo o ciclo de negatividades. O mesmo vale para todos os grupos de hábitos:
Jogo –> Fé… Apegar-se apenas ao que é autêntico…
Gula –> Estabilidade… Estar presente… Serenidade…
Álcool –> Cooperatividade… Compartilhar somente positividades…
Fumo –> Humildade… A simplicidade do “querer ver”…
“Combater” os vícios só pode provocar uma reação de fortalecimento do ego. O mais importante é, primeiro, reconhecer que nada podemos fazer contra as nossas dependências (pois elas não são realmente nossas) e depois procurar incansavelmente as negatividades que elas escondem.
Ao invés de lutar, devemos escolher “querer ver”, renunciar a qualquer ação, ser apenas quem observa sem interferir. Este é o único comportamento capaz de tornar clara a separação entre o que somos e quem realmente sofre, aumentar o contraste entre a individualidade e o ego… as positividades e as negatividades.
O “bonito” e o “belo” não são a mesma coisa. Enquanto o “bonito” emerge como o resultado de um julgamento relativo e pessoal, o “belo” é um sinal de identificação entre o observador e a coisa observada, ou seja, o belo é o sinal do reconhecimento de uma identidade. O bonito pode surgir de uma opinião, mas o belo só pode vir da atenção.
O bonito (que significa, literalmente, “bonzinho”), é o mesmo que bom, agradável… Nós estamos sempre reduzindo a beleza aos nossos gostos e conveniências, a nossa atenção é filtrada pelo que nos agrada, e, então, nós não percebemos mais estas diferenças. Enquanto transitarmos pelas vias contrastantes dos nossos gostos, jamais conheceremos a beleza.
A beleza precisa da atenção para ser notada, mas nós somos muito desatentos. Nós dirigimos sempre a nossa atenção de forma seletiva, nós estamos sempre procurando alguma coisa que se encaixe nos nossos sonhos de satisfação. Nós procuramos apenas o “aprazível”… Todo o resto é “desprezível”!
Mais uma vez mostramos o quanto estamos presos às lembranças… Se fôssemos simplesmente atentos, poderíamos encontrar facilmente beleza em toda parte. Encontrando a beleza, encontraríamos o novo, o autêntico… Mas como estamos sempre procurando o que já conhecemos, desprezamos toda a “graça” da vida.
A FORÇA DO DESPREZO
É assim que funciona a mente julgadora: dividindo a vida em coisas aprazíveis e desprezíveis. O desprezo, todavia, é o mesmo que não querer ver, é ignorância voluntária, mesmo que inconsciente. O inconsciente, a propósito, é onde estão escondidas todas as coisas que desprezamos. Mas elas não ficam passivamente ali… Ironicamente, a maior parte de tudo que percebemos do mundo é a manifestação da força de tudo que desconhecemos, as coisas de que somos inconscientes. Tudo que está desprezado nos pressiona constantemente até tornar-se conhecido.
Nós não vemos as coisas que nos são inconscientes, mas sentimos a sua força o tempo todo, em todas as circunstâncias de que nos cercamos. Quanto mais desatentos – ou seletivamente atentos – nós somos, maior é a força do inconsciente sobre nossas vidas. O desprezado luta para ser conhecido… e é por isso que estamos sempre com medo.
OS QUATRO MEDOS
Os antigos egípcios acreditavam que as pessoas sofriam de quatro tipos básicos de medo:
- Medo de perder
- Medo de enfrentar
- Medo de ser abandonado
- Medo de morrer
Havia, inclusive, um templo inteiro dedicado à superação do medo. Nele, os iniciados passavam por diversas provas onde eram obrigados a vencer o medo… ou morrer. No fim das contas, o medo da morte era o grande motivador do sucesso, mas até ele deveria ser vencido numa prova final. Se o iniciado, na última prova, ainda tivesse algum medo da morte, ele morreria…
Mesmo parecendo algo bárbaro em nossos dias, o fato é que todos nós morremos por causa do medo que temos de morrer. Nós passamos a vida inteira desprezando a morte e, por isso mesmo, estamos sempre sendo cercados por ela. Nós não conhecemos a morte, mas experimentamos a sua força em todas as circunstâncias em que nos envolvemos.
Nós não conhecemos a morte, mas vemos a sua força destruindo corpos… Vemos a possibilidade de os nossos próprios corpos serem destruídos, mas não sabemos o que a morte é… Não podemos saber porque desprezamos a morte e, depois, damos o nome de “vida” ao nosso desprezo.
Não pode amar verdadeiramente a vida, quem despreza a morte. Quem venceu o medo da morte, no entanto, é imortal! Por isso os antigos egípcios aceitavam provas tão radicais. Eles sabiam muito bem que o medo da morte é a única causa da morte.
O templo onde esses testes aconteciam era dedicado a dois deuses: Horus e Sobek (deuses representados com corpos humanos e cabeças de falcão e crocodilo, respectivamente). Horus é o deus da Luz, da consciência espiritual. Sobek é o deus das trevas e do inconsciente. O templo era rigorosamente dividido ao meio – metade para cada deus – mas era um único templo. A divisão se dava ao longo de sua extensão, e os dois deuses ficavam lado-a-lado. Todo culto prestado a Horus era prestado igualmente a Sobek.
Isso representava o fim da luta entre o consciente e o inconsciente, a luz e a sombra, o aprazível e o desprezível… Era o fim do medo! Se conseguisse passar por todas as provas, o iniciado tornava-se um imortal, pois teria encontrado a neutralidade, ou seja, teria aprendido a “lutar com o bem e com o mal”…
O RECONHECIMENTO DO AUTÊNTICO
A imortalidade não é o mesmo que a infinita durabilidade do corpo. Como nós não conhecemos a morte, nós achamos que ela é a destruição do corpo. Em verdade, a morte não existe. O que chamamos de “morte” é apenas a síntese de todos os nossos medos. Morrer, da forma como percebemos, é uma representação que acontece quando desistimos de resolver o conflito entre o aprazível e o desprezível.
Nós acreditamos que temos medo da morte, mas o que nós realmente tememos é a vida! A vida é a grande desprezada, a vida autêntica – aquela que vai além dos nossos gostos e conveniências –, e o autêntico é sempre neutro. Quando reconhecemos o autêntico, acontece a identificação, e isso é a beleza.
A beleza, então, não é um atributo relativo de alguma coisa, e nem depende dos nossos sentidos para existir. Ela é um sinal de reconhecimento e identificação com tudo que é autêntico. Normalmente nós nos identificamos com o ego, com as negatividades, com as referências do sistema de crenças… Por isso confundimos o “belo” com o “bonito”, o “autêntico” com o “aprazível”.
Quando nos identificamos, nem que seja por um instante, com o autêntico, tudo fica claro, a beleza se desvela em toda parte, a vida se mostra como ela é… e a morte desaparece! É por isso que se diz que todas as coisas vêm da Graça de Deus.
“Graça” é o mesmo que “beleza”, é o sinal da autenticidade. “Dar de graça” é o mesmo que dar autenticamente; “receber de graça” é o mesmo que receber autenticamente… Sem uma atenção irrestrita não é possível ver a beleza e, sem ver a beleza, a gratidão não é possível. Sem gratidão não temos nada… não somos nada.
VIGILÂNCIA ACIMA DOS JULGAMENTOS
Ao perfeito estado de atenção, aberta e neutra, os yogues hindus chamam de “dharana”. Em português, podemos usar o termo “Vigilância” (desde que não se faça confusão entre “vigilância” e “policiamento”), a capacidade de ver com atenção irrestrita.
A vigilância é o estado de abertura da visão, o “querer ver” sem desprezar nada. Para alcançar esse estado, não há uma técnica especial, mas o exercício constante da tolerância pode nos levar a ele.
Tolerar é alargar as nossas expectativas na busca do aprazível, é desprezar cada vez menos, é julgar cada vez menos… De certo modo, a tolerância é um tipo de confiança e, assim como a confiança desperta a Disponibilidade, a tolerância desperta a Vigilância, pois ela representa a confiança no fato de que a beleza está em toda parte… Basta querer ver.
Tudo vem da beleza.
Quem não vê a beleza, não vê nada…
Não é porque as dores são ilusórias que nós não devemos cuidar delas. Em verdade, devemos cuidar tanto das dores quanto das alegrias. É isso que nos liberta quando reconhecemos que toda satisfação passageira também é um sintoma da ignorância.
A LUTA COM O BEM E COM O MAL
Akbel ensinava que a felicidade só é possível “pela luta com o bem e com o mal”. Ele precisou utilizar termos carregados de conflito (como “luta” e “dever”) ou não teria sido ouvido em seu tempo, justamente o século em que estivemos mais próximos de chegar, pelas nossas próprias tendências belicosas, à extinção de toda a espécie humana. Mas quem podia vê-lo em sua essência de Amor, sabia que ele não estava falando em ataques ou defesas, ele não falava em travar novos combates inúteis, mas em cessar os conflitos já instaurados.
“Lutar com o bem e com o mal” não é o mesmo que “lutar contra o bem e contra o mal”. “Lutar contra” é o que nós já fazemos o tempo todo. Tudo que nos é inconveniente é, para nós, o mal, mesmo que para outras pessoas, ou em outras circunstâncias, as mesmas coisas sejam vistas como o bem. Nós lutamos contra tudo, e todas as nossas lutas visam apenas a preservação da ignorância. Akbel ensinou que somente reunindo o bem e o mal numa mesma “neutralidade”, só assim, conheceremos a felicidade. Isso equivale a dizer que, somente desistindo de julgar, poderemos encontrar a verdade.
CEGOS PARA DEUS
Nos nossos sonhos de vida, nós somos cegos para Deus porque estamos sempre escondendo a metade das coisas. Quando nos alegramos com algo, escondemos todo um mundo de tristezas… Quando estamos tristes, fechamos os olhos para todo um mundo de alegrias. Nós temos dois olhos, mas vemos tudo pela metade!
Se vemos alguém doente, cheio de dores (sejam físicas ou não), nós estamos vendo apenas metade do problema. Se vemos crianças abandonadas e maltratadas, isso é apenas a metade do problema. Vendo apenas a metade dos problemas, nós não poderemos resolvê-los.
Só que este não é nosso foco neste momento. O que é importante dizer agora é que, mesmo assim, nós podemos (e devemos) proporcionar algum alívio… e isso já é muito! É muito porque a outra metade do problema não está nos doentes ou nas crianças famintas que vemos no mundo. Surpreendentemnete, a outra metade está em nós mesmos!
A GRANDE SEPARAÇÃO
A grande separação que fazemos, a maior dualidade que construímos, é a oposição entre o “eu” e o “não-eu”, o “eu” e os “outros”, o “eu” e o “mundo”… Sem esta separação, nenhuma alegria seria possível, a menos que todas as pessoas estivessem alegres. Nenhuma tristeza seria possível, a menos que todas as pessoas estivessem tristes… Em verdade, sem esta separação, não haveria nem alegrias e nem tristezas… apenas felicidade.
Nenhum dos nossos atos, pensamentos e palavras são neutros. Tudo o que fazemos afeta o universo inteiro! Vivendo a grande separação, se nós estamos satisfeitos, alguém está faminto; se temos muito, alguém não tem nada… O mundo que fazemos com os nossos julgamentos é assim. Só a “luta com o bem e com o mal” pode mudar isso. Somente com o fim das fronteiras entre o “eu” e o “não-eu” é que a felicidade será desvelada.
A felicidade é o nosso estado natural, mas nós não a conhecemos, nós nos negamos a conhecê-la… Em verdade, para nós o bem é sempre uma exclusividade do “eu”. Todo o resto é o mal. Lutar com o bem e com o mal é compor uma mesma unidade que englobe tanto o “eu” quanto o “não-eu”.
O fato é que não existe um “não-eu”. Todas as coisas do mundo nos dizem respeito, pois nós as colocamos lá. A invenção mais estúpida que nós já concebemos foram as fronteiras! As fronteiras são a instituição da ignorância e da separação. Do mesmo modo que cada pessoa é o bem para si mesma, cada nação é, para si mesma, o bem cercado pelo mal por todos os lados.
LIBERDADE E AMEAÇA
Foi Gandhi quem disse: “nenhuma nação pode ser livre se constitui uma ameaça para as outras nações”, e isso é o que nós podemos constatar em nossos dias… A nação mais poderosa do mundo de hoje – os Estados Unidos – é uma ameaça constante ao planeta inteiro, mas o grau de ameaça que oferece é inversamente proporcional à liberdade do seu povo… O mesmo vale para todos nós: quanto mais ameaçadores nos tornamos, menos livres nós somos. A ameaça aumenta na mesma medida em que acreditamos que o bem é uma exclusividade nossa.
A VONTADE DE DEUS
Quando alguém usa tudo o que sabe para tentar aliviar o sofrimento alheio, é porque algo em seu interior lhe diz que o sofrimento não é do outro, mas seu próprio. Aliviar os sofrimentos dos outros, então, não é apenas caridade ou altruísmo, mas, principalmente, uma questão de inteligência! É o mais elevado grau de inteligência, o reconhecimento da realidade do sofrimento… a compaixão! Mais do que isso: quem age desse modo desenvolve uma capacidade de estar disponível que vai além de toda conveniência.
A “disponibilidade” é, na Mente Compassiva, a própria inteligência divina, a infalível “Vontade de Deus”, incapaz de ver separações e ciente de que o único modo possível para aumentar a felicidade é compartilhando felicidade. É por isso que, quando alguém faz algo de “efetivo” para aliviar as dores alheias, sempre pede que toda gratidão seja dirigida a Deus, pois é realmente a Mente de Deus quem age nessas ocasiões… é a Interferência Divina.
UMA CONFIANÇA INCONDICIONAL
Tudo o que damos, nós damos a nós mesmos, sejam positividades ou negatividades. Tudo o que recebemos, é sempre gratidão… Mas nós não podemos dar positividades antes de vencer a idéia de que os outros são uma ameaça para nós. É preciso, antes, desenvolver um tipo incondicional de confiança. Devemos confiar no próximo como confiaríamos em nós mesmos… Mas se não confiamos nem em nós mesmos, dificilmente teremos positividades para compartilhar, dificilmente iremos nos interessar pelo sofrimento de quem quer que seja.
Não se trata, porém, da confiança como uma certeza da capacidade de realizar algo, mas de um estado no qual nada, ou ninguém, é visto como uma ameaça. Sem confiança, a nossa vida é cheia de ansiedade, estamos sempre com medo, sempre expressando hostilidade e desânimo. Somente a confiança pode despertar a Disponibilidade, a Inteligência Divina, a Vontade de Deus em nós. Nós não podemos praticar a Disponibilidade, mas podemos aprender a confiar.
Aprender a confiar é um longo caminho. Muitas vezes nós nos decepcionaremos, mas, sempre que isso acontecer, basta lembrar que a confiança que procuramos é incondicional, ou seja, não depende do comportamento dos outros. Se dizemos que confiamos, mas nos decepcionamos, é porque a nossa confiança não é incondicional, significa que nós ainda esperamos algo de alguém.
A confiança não pode esperar recompensas, nem de Deus, nem das pessoas… Isso não é confiança. Quem age desse modo está mais perto da arrogância e da hostilidade do que da confiança e da Disponibilidade.
A verdadeira confiança sempre será acompanhada da humildade, da simplicidade de quem quer apenas ver o autêntico, o verdadeiro. Não adianta dizer que confiamos no mundo, que ninguém pode nos ameaçar, e esperar que o mundo se submeta às nossas projeções de desejos ou de segurança.
O que adianta é render-se incondicionalmente e utilizar todos os meios disponíveis para aliviar as dores onde elas estiverem.
O que adianta é ser humilde e aceitar o simples fato de que jamais seremos livres se continuarmos perseguindo os nossos desejos e fugindo dos nossos medos.
O que funciona é ceder sempre a vez ao próximo sabendo que nada está sendo realmente cedido.
O que importa é saber que o amor ao próximo “é” o amor a si mesmo…
O vídeo dispensa comentários… Mais claro, só sentindo na carne quando não houver mais jeito.
Créditos:
“The Story of Stuf”
Versão brasileira idealizada pela comunidade Permacultura
Orkut: http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=111403
Realizada nos Estúdios Gavi New Track – SP
Direção e edição Fábio Gavi;
Locução Nina Garcia;
Adaptação do texto Denise Zepter.
Site brasileiro de divulgação do vídeo


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